Um tanto mais sobre leitura

Quando nós falamos da necessidade de se promover a difusão da leitura, em especial de gêneros literários, devemos nos permitir questionar, e responder satisfatoriamente, se queremos fazer nossa sociedade capacitada para se fazer uma autocrítica, se queremos fazer de nossos cidadãos seres humanos capazes de verem o mundo ao seu redor com um olhar de criticidade, e serem capazes de modificá-lo, fazendo, deste mundo, um ambiente democrático, de respeito, onde haja espaço para as convivências pacíficas, democráticas, de múltiplos pensamentos, diversas opiniões, como bem requer a atual sociedade moderna, globalizada; ou se queremos apenas satisfazer mais um capricho do sistema capitalista, onde este pouco se preocupa com o crescimento intelectual do ser humano, vendo as pessoas apenas como consumidores em potencial, se não os são, ficam descartados, marginalizados.

Visto que,

Estes fatos contradizem e, simultaneamente, denunciam a maneira como é compreendida a popularização da leitura na sociedade capitalista, quando se confunde com ampliação de mercado consumidor, ou seja, com a penetração de grande número de livros em diferentes camadas sociais. (Zilberman, 1988, p. 32).

Vale ressaltar que a literatura popular preexistia da mercadológica, já que, esta passou a vigorar com o advento das produções em larga escala, onde passou a haver a necessidade do capital para a sua devida obtenção. E, a primeira, a literatura popular, era produzida por pessoas do povo e transmitida para o povo de forma oral, sem a existência de atravessadores, editoras, entre o artista e o seu público, não consumidor, mas saboreador de sua literatura.

Hoje vemos um fenômeno que chega a ser de verdadeira repulsa entre a literatura difundida pelas grandes editoras e o público de leitores em potencial. Principalmente pelo fato dos leitores não se identificarem com o que é divulgado, produzido, colocado no mercado como literatura. Há inúmeras políticas públicas e privadas de incentivo à leitura; ONGs, grandes empresas, os governos federal, estaduais e municipais compram grandes acervos de livros das grandes editoras, e acessibilizam a escolas, bibliotecas populares, associação de moradores, livros que não despertam o interesse dos possíveis leitores.

Ainda citando Zilberman(1988, p. 53),

Os programas mais recentes, na medida em que não endossam a tese de valor duvidoso de que popularizar a cultura (no caso, a literatura) significa tão-somente reproduzir a cultura popular entre seus produtores e adeptos, insistindo numa segmentação que continua afastando os setores inferiorizados da sociedade do conjunto dos bens culturais, podem constituir num fator efetivo de democratização do saber. E, portanto, de rompimento com a tradição secular de manter a maior quantidade possível de pessoas alienadas da cultura, que, por conseqüência, se desfila, perde a vitalidade e torna-se dependente de influências externas.

Assim, chega de achar que a população mais pobre deste país é incapaz de escolher, e de opinar, na produção e compra de livros que lhes são oportunizados para a leitura. A elite econômica deste país não pode ditar o que é melhor para as classes mais populares lerem, visto que, vivemos numa democracia, e esta democracia deve também ser demonstrada na opinião da compra de livros que os pobres querem ler.

É muito dinheiro gasto na popularização da leitura neste país, onde as legítimas beneficiadas são as grandes editoras, estas pertencentes à classe dominante, que não tem nenhum interesse de procurar saber o que querem ler as classes populares, pois, se estas quiserem ler obras produzidas por escritores de seu próprio meio, haverá, naturalmente, uma ruptura com os interesses das grandes beneficiadas, as editoras, já que estas protegem seus “bons escritores”.

Percebe-se que, em decorrência desses aspectos, a leitura não está constituída somente a partir de uma idéia, com o poder de um sistema ideológico. Nela está contida, também, uma sistemática estruturalizante muito mais concreta, que pretende e sabe assumir contornos de imagem, confeccionada por modos de representação característicos, manifestações próprias e atitudes intrínsecas. Faz parte dessa ambientação representativa a alusão a resultados de ordem prática, e de caráter progressistas. E tudo isso também deve ser vislumbrado pelas camadas mais desfavorecidas de toda a sociedade.

A leitura se concretiza como uma prática que só existe se houver a sua profunda difusão material, que se exerce de maneira individual ou coletiva, mas que resulta da concepção que a sociedade formula para as classes e as pessoas que a compõem. A prática de leitura é inteiramente dependente de forças impulsionadoras, sejam elas governamentais ou em menores âmbitos. Eis a razão para sempre nos depararmos com políticas destinadas à leitura – por vezes propostas por grupos, por profissionais categorizados, pelo próprio governo – bastante aptas a revelar toda a dimensão assumida pelas representações atribuídas ao seu papel social formador de consciência crítica e de cidadania.

Sobre isso, Zilberman(2008) atesta:

Políticas de leitura não deixam de valorizar a leitura como idéia; mas seu sucesso depende de a leitura ser igualmente prezada enquanto negócio. Um importante ramo da sociedade capitalista é constituído pela indústria de livros, para não se falar das fábricas dos maquinários para impressão, nem do hoje importante segmento dado pela produção de hardwares, softwares e periféricos que fazem a alegria das feiras de informática. Não ler é ficar de fora desse mundo, o que talvez signifique ficar de fora do mundo.

Já se tornou lugar comum dizer que o povo brasileiro não lê. Pesquisas revelam que lemos apenas l,8 livros por ano. Se compararmos esse dado com informações de outros países, que alcançam 5, 7, 10 e até 15 livros por ano, a noção de deficiência logo se escancara e mostra falhas enormes em todo o arcabouço educacional-cultural nacional. O Brasil lê pouco, principalmente, pelo grande contingente de analfabetos. Passamos pelo século XX, entramos no XXI com uma grande quantidade de analfabetos puros, pessoas que não sabem ler nem escrever, e também com os chamados analfabetos funcionais, grupo que esteve na escola, chegou a aprender a ler e a escrever, mas não é capaz de entender o que lê, por conseguinte, não consegue escrever um texto simples.

Entre os problemas mais proeminentes de nossa cultura, a leitura exerce um papel essencial e decisivo para o salto perante a civilidade e a cidadania que o Brasil vem realizando. Não pode haver nação desenvolvida que não seja uma nação construída e sedimentada pela figura do leitor. Do operário que necessita ler manuais até o advogado que precisa decifrar o “juridiquês”, passando pelo estudante prestes a realizar os exames de seleção profissional, além do cidadão que enfrenta as urnas em época eleitoral, à dona de casa que rege a educação de sua família, ao jornalista que enfrenta sua papelada, todos os partícipes de uma sociedade civilizada são quase que obrigados a utilizar várias maneiras de leitura e interpretação de livros, jornais, revistas, relatórios, documentos, textos, resumos, tabelas, computadores, cartas, cálculos e uma multidão de outras formas escritas.

Se esta situação não for bem trabalhada, o futuro do país pode não ser feliz. Pois, como diz Fiore(2008):

Esta situação é uma ameaça latente e permanente para o nosso desenvolvimento social, econômico e político. É fundamental para o futuro da democracia brasileira estabelecer condições para que, da multidão de jovens pobres que habita as periferias, possa emergir uma massa significativa de pessoas educadas que se integrem nas nossas futuras elites. E para que isto se realize é essencial que esta massa de jovens tenha familiaridade com a leitura. Sem esta familiaridade, sua ascensão social será frustrada, nossa democracia continuará a perigo e nossa sociedade continuará pobre. Este é um fato muito pouco discutido na mídia, […]. Mas é um problema que os políticos, jornalistas, cidadãos e empresários conscientes devem colocar na pauta de nossas prioridades estratégicas. O Estado, a sociedade e as empresas têm obrigação de compreender o problema, dimensioná-lo, identificar seus fatores críticos e estabelecer programas realistas para resolvê-lo.

Do contrário, este país continuará um gigante adormecido para o mundo globalizado, que prima cada vez mais pela tecnologia de ponta, pelo cidadão multiletrado, este capaz de entender e transformar as informações e descobertas que se proliferam a todo instante, de forma tão rápida que chega impressionar.

REFERÊNCIAS

FIORE, Otaviano de. O papel da leitura no desenvolvimento social, econômico e político da nação. Disponível em: http//www.ebookcult.com.br/ebookzone/livrobibliotecaeleituranobrasil.html
Acesso em 20 abr.2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 35. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

PRESTES, Maria Luci de Mesquita. A pesquisa e a construção do conhecimento científico: do planejamento aos textos, da escola à academia. 3. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Rêspel, 2005.

UNICAMP. Universidade de Campinas. A Leitura no Brasil: sua história e suas instituições. Disponível em:
http//www.unicamp.br/iel/memória/ensaios/Regina.html
Acesso em 20 abr.2008.

ZILBERMAN, Regina. A Leitura e o Ensino da Literatura. 1. ed. São Paulo: Contexto, 1988.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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