Uma carta para o senhor tempo

Senhor Tempo:
Resolvi escrever, pois afinal, são mais de noventa anos juntos.
O senhor já está cansado de saber o meu nome, mas eu me chamo Camila.
Às vezes esqueço alguma coisa, mas é culpa daquela doença, “Auzai…” Depois eu lembro.
O que eu queria mesmo era agradecer. Somos parceiros de longa data e muitas vezes eu não dava muita atenção ao senhor.
Lembra quando eu era criança e corria pra lá e pra cá, tentando aproveitar ao máximo o Tempo que eu tinha pra brincar? Pois então, sempre achei que o Tempo estivesse esgotando. E no final eu só ficava cansada mesmo achando que não poderia perder Tempo.
Meu pai, pobre pai, morreu dizendo que não tinha Tempo para frescuras e teve pouco Tempo aqui na Terra.
Quando eu me entristecia, minha mãe dizia: Dá Tempo ao Tempo ou: O Tempo resolve tudo. Eu ficava mais brava ainda.
Quando chovia demais, a gente falava mal do senhor, mesmo o senhor não ter culpa de nada:
– Que tempo porcaria!
Não era o senhor que a gente estava referindo era o outro tempo que nada tem a ver com o senhor.
Quando eu era adolescente queria logo ser adulta, torcia para que o Tempo passasse logo.
Quando aparecia algum pretendente eu dizia que não tinha Tempo pra namorar. Tudo mentira, pois eu namorava todos ao mesmo Tempo.
Tornei-me uma mulher bonita.
Parece que na época, o senhor fez bem pra mim. Casei e tive uma linda filha. Aquela criaturinha mudou a minha vida, Foi um Tempo bom. E faz tanto Tempo que eu já não me lembro de tanta coisa. Por causa deste tal de “Auzai…” Sei lá.
Mas não era isto que eu queria falar, senhor Tempo. Queria agradecer pela companhia e reclamar também do preço caro que o senhor nos cobra por isso. O senhor não envelhece nunca! Quando me lembro do passado, o senhor já era celebridade, pois todos diziam que o Tempo era precioso.
Hoje, posso até ter “Auzai…”, mas estou valorizando mais o Senhor, pois sei que logo, logo estará nos deixando.
Junto com o senhor percebi que a viagem no Tempo é possível.
Já voltei ao passado diversas vezes e extrai alguma coisa boa, e foram muitas. E, também mudei algumas coisas, que achei que estavam malfeitas.
Depois disto fiquei mais tranquila.
Aqui, o senhor é a vedete:
Preenchemos o Tempo; passamos o Tempo; aproveitamos o Tempo; deixamos o Tempo passar; valorizamos cada pedaço de Tempo. O senhor deveria orgulhar-se de nós.
Ah! Agora lembrei!
Eu queria pedir encarecidamente para o Senhor o seguinte:
Como eu tenho bastante Tempo, eu queria que o senhor tirasse um pouco de mim e desse para a minha filha, pois ela disse que não tem Tempo pra visitar-me aqui no Asilo.
Era só isso.
Por favor!
E este tal de “Auzai…” esquece, não deve ser coisa boa mesmo.

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS publicou "Premissas", "A maleabilidade do tempo", "Fios de Prata, "Império do cinismo" e "Fundamentalismo Democrático".

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