Vem pra briga você também. Vem!

– “Omo faz, Omo mostra”. Mas mostra o quê? Acho vago esse raciocínio.
– Queria que eu fizesse um tratado filosófico? Slogan bom tem no máximo seis palavras. Eu me virei com quatro. Tinha feito outras opções para apresentar, na verdade gostava mais de um outro. Mas o cliente escolheu esse.
– Não foi o meu caso. Quando criei “Danoninho vale por um bifinho”, só mandei um e acertei logo de prima. Na convenção da empresa me fizeram uma homenagem, como autor de um posicionamento que iria diferenciar o produto nos próximos 20 anos. Foi muita responsabilidade. Pra você ter uma ideia, me deram de presente um Chevette GP Okm, daquele laranja com friso preto.
– Vai me desculpar, mas com esse slogan você convence a mãe, não a criança. Tá falando que é nutritivo, mas o pirralho não está nem aí com isso.
– Não, não. Eu falo pra criança que, comendo um Danoninho, ela escapa do chato do bife.
– Tá bom, mas deixa eu defender minha cria e explicar o meu “Omo faz…
– Se precisa explicar é porque não deu o recado. E depois, já faz uma cara que isso saiu do ar, pra que ficar ressuscitando defunto?
– Bom, o mesmo vale pro seu “Danoninho”, meu velho. Aliás, estamos os dois com as chuteiras penduradas há bom tempo, não sei que diferença faz essa discussão.
– Pra mim é questão de honra. Olha só, o “bifinho” rima com “Danoninho”, o jingle do comercial de TV utilizava “O bife”, que qualquer criança sabia tocar no piano. Todo mundo entendia que aquilo não era guloseima, era alimento. E era gostoso! Pra ficar veiculando tanto tempo, a campanha tinha que ser muito boa, tinha que ter um conceito convincente.
– E tinha. Mas “Omo faz, Omo mostra” também durou um tempão. Eram comerciais testemunhais, tinha que ter veracidade. O slogan fazia uma releitura do “mata a cobra e mostra o pau”. A dona de casa se convencia, tinha medo de arriscar com outra marca e deixar a roupa encardida. Acho que só a gente sabia da verdade. O pessoal de desenvolvimento de produto dava a entender que sabão em pó era commodity, tudo igual. Essa constatação acabou entrando até no briefing da campanha. Hoje eu fico imaginando, se eu tivesse gravado aquela reunião com o cliente, quando ficou quase explícito que sabão em pó era tudo a mesma coisa, eu mesmo – como criador – poderia ter processado a empresa por propaganda enganosa.
– Mas aí você poderia ser processado também. Como cúmplice!
– Você fica aí falando, falando, mas na época dessa sua campanha do bifinho, muita gente questionou a propaganda, dizendo que o valor nutricional não era equivalente. Além de ter muito açúcar, corantes, conservantes…
– Se todo mundo fosse ficar olhando o rótulo de tudo, ninguém comeria nada. E a gente perderia o emprego. Como diria o ministro da Fazenda, dos bons tempos do comercial do bifinho: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.
– Tem cara de slogan isso, heim. Outro seu?
– Não lembro, pode ser. Com Rexona, sempre cabe mais um.

Esta é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com o mundo maravilhoso da propaganda terá sido mera coincidência. Promoção válida só até sábado, ou enquanto durar o estoque.

© Direitos Reservados

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo. Blog Consoantes Reticentes.

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