Vidas Transitórias, de Ottavio Lourenço (uma resenha)

Vocês se lembram daqueles momentos da vida que as pessoas costumam, em geral, considerar desprovidos de substancialidade, ou de importância? Um fim de tarde corriqueiro, uma ida à barbearia, à ginástica, ou mesmo um simples café da manhã? É interessante descobrir que estes momentos podem ser ricos em experiências e podem ser transformados em belas histórias ou crônicas.

Essa reflexão me acompanha há algum tempo e a vontade de escrever algo sobre ela foi trazida da potência ao ato após a leitura de um livro que recebi há alguns meses. Trata-se do livro “Vidas Transitórias”, do escritor curitibano Ottavio Lourenço. Então, o que teremos a seguir é uma resenha (eu diria, de fato, uma apresentação) deste livro.

O livro chegou às minhas mãos, enviado pelo autor, que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Nós nos conhecemos pelas redes sociais, que é o canal pelo qual continuamos a trocar reflexões.

Vidas transitórias é uma obra visceral, composta por breves e ricos relatos, que tanto podem ser tratados como “contos”, ou como “crônicas”. Aliando elementos da filosofia, sobretudo do existencialismo, ao cotidiano, o autor traz à tona a riqueza que repousa nos mais simples acontecimentos, como o capítulo “Hoje”, que nos alerta para o fato de que são poucos os momentos da vida nos quais realmente exercemos autonomia, como quando, por exemplo, escolhemos se iremos comer pão francês ou integral, bolacha ou misto quente. Ou o capítulo “Intriga internacional”, que narra momentos da vida de duas pessoas que, buscando romper com a rotina, partem para uma vida de disfarces e múltiplas personalidades, sem, no entanto, perceberem que esta passa a ser a rotina de suas vidas.

Lourenço divide a obra em duas partes: “Sucessivamente penso”, na qual a própria vida é tratada com uma exceção e na qual predominam relatos com desfechos aporéticos, ou socráticos. Na segunda parte: “Sucessivamente acredito”, em que se apresenta a subjetividade da liberdade e na qual os relatos trazem soluções práticas e, diríamos, certo conteúdo moral, sem pedantismo ou moralismo. Um exemplo desta afirmação é o capítulo “Vertigo”, que oferece as seguintes reflexões: “A reciprocidade do amor é inevitável quando… não é recíproco? O amor correspondido, e por isso, pleno, é impossível? Ou o amor, para ser pleno, não precisa ser correspondido?”. E, finalmente, há ainda uma provocação: “Sucessivamente digo”, na qual o autor encerra o livro com uma rápida sentença filosófica, presente desde os primórdios das reflexões humanas: “Nós não somos somente um o tempo todo!”

Enfim, o livro “Vidas Transitórias” é uma obra que nos faz pensar, nos faz ir além da mesmice própria do cotidiano, encontrando a riqueza que subjaz nos mais corriqueiros episódios. Nos faz pensar em quantas experiências ricas nós já vivemos, mas que repousam esquecidas em algum lugar de nós mesmos.

Sobre o autor: Ottavio Lourenço é músico, filósofo, compositor, vocalista da banda de metal/hardcore “Choke” e escritor, com textos publicados na Argentina, Portugal, Itália e Brasil.

Vidas Transitórias (Ficha técnica):
Autor: Ottavio Lourenço
Zeitgeist, Curitiba (PR)
Editor: Rodrigo Ricardo
80 páginas
Ano: 2015

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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