Ainda Aqui

curta2“Quando a agulha parar de tecer o tempo, quando o tempo parar de mover o ponteiro, como seria se ninguém soubesse que você um dia existiu?” O Página Cultural recebeu em primeira mão e convida você a assistir ao novo curta do “Ruminante”, jornalista e também colunista do Página Cultural, Renato Cabral. Leia também o texto de Lara Stoque (jornalista, compositora e admiradora do autor) produzido especialmente para o curta.

Clique na imagem para assistir ao vídeo.

Desta vez temos pouco tempo

*Por Lara Stoque

Obcecado pelo tempo e pela morte, o diretor Renato Cabral desconta no cinema a dor pela perda do pai, o que resulta em um singelo filme sobre todas as grandes dores.
Se ele diz que não é ficção, por que então o cinema? Podia ser de novo um livro. Mas ele não quis desperdiçar mais nada dessa vez, preferiu esgotar todos os recursos enfiando palavras, sons e cenas. Mais uma vez o tremor delirante e pensante do multimídia Renato Cabral escarafunchou e machucou a nossa pobre alma. Mas, não se preocupe, ficaremos, sim, ainda aqui. Para ver seu novo filme. Para debruçar nossos regaços no tempo. Para cacarejar nossos mortos. Para fermentar nosso pavor.
Existencialista, a obra parece suspirar para que não haja morte, mas logo nos deparamos com flores que nada têm de alegres. A personagem fica na cama e não sai dali. O sol também não aparece e a chuva não molha, só respinga a saudade. E a velhice assombra nossa humanidade. No entanto, a personagem vivida pela avó do diretor, Dorvalina Fagundes, é a antítese disso tudo. Ela virou atriz para o neto; para o filho perdido; para paralisar seu fim. E só a arte pode estancar esses lamentos.
As fotos no quarto não são penduradas, são jogadas. Às vezes, precisamos engolir a seco a monotonia dos dias. Será que o filme é triste por que perfura o relógio e faz conta-gotas com a vida? Existimos mesmo depois da dor? Somos devotos de uma perspectiva que queremos evitar? Será que o que nos resta é o lençol que amordaça nossa memória?
O desejo que nos movimenta durante o filme evoca vários pensamentos. E nada interessa quanto às respostas. Não somos de plástico como bonecas, portanto é permitido chorar se for necessário.

Por Lara Stoque, jornalista, compositora e devota de todas as obras cabralianas. Até as mais dolorosas.

O diretor
Renato não é devoto a nada. A ninguém. À causa nenhuma. Fala demais porque o impulso o consome. Ama as mulheres porque precisa de afago. Adora filosofia porque se desdobra para justificar a vida. Nunca consegue isso. Mas achou no cinema, na escrita e na literatura o jeito de suportar sua solidão. É indecente, incoerente e inconsequente. É bem mais reservado do que esbraveja. Finge ser pessimista, mas idolatra a pequena sobrinha. Acha que tudo é uma competição, mas no final do dia se conforma que a vida não é grande coisa. Ainda bem.

As artes

Começou com o filme “Vida Desperdiçada”, poderíamos chamar de sorte de iniciante. Mas veio “Entre os dedos” e ficou claro que não era sorte, era sensibilidade. Antes de fechar a trilogia escreveu “Míseros Platôs” (anos para ver ser no papel teria redenção. Não teve e nunca terá), basta assistir “Ainda aqui”, o filme fecha a angústia do diretor. Ou inicia um novo ciclo delas. Veremos…

2 Comentários

  1. Primeirão! Valeu pela força na divulgação ao ultra Página Cultural. Té. Nos vemos.

  2. Profundo. Triste. Verdadeiro.
    Lembrei de “Pálidos Pardos” (”Quantos homens não sabem o teu nome. Quantos logo o esquecerão. Quanta lembrança ficou.”), que, aliás, não mais encontro em sites de video…
    Parabéns!

Deixe um comentário

Seu comentário só será publicado após aprovação do moderador.